Aqui temos uma daquelas composições que parecem inocentes mas escondem, como quem não quer a coisa, uma certa ironia visual. A imagem mostra uma silhueta simples mas eficaz: uma gaivota empoleirada num ramo de árvore. Em silêncio. Sozinha. Quase com ar de quem acabou de ser despejada da marginal de Matosinhos e foi encontrar abrigo improvisado numa parede de sala suburbana.
É uma reinterpretação quase poética do que esperamos da gaivota – bicho habitualmente ruidoso, inquieto, oportunista a rondar o grotesco (basta ver o estado dos caixotes do lixo depois do seu toque pessoal). Aqui, não. Aqui está estática, contemplativa, como se tivesse lido Pessoa e andasse a repensar escolhas de vida.
O ramo seco e nodoso em que assenta cria um contraste marcante com a superfície lisa da parede. O traço irregular do vinil evoca ilustração de livro antigo, ou mesmo teatro de sombras – mas em asceta minimalista, despojado de dramatismo. É um statement visual: dentro da casa, sim, mas ainda à espreita do mundo. Suspendendo o voo e trocando a aragem salina por um abstrato cinzento de tinta acrílica. A gaivota encontra-se, portanto, algures entre a aceitação resignada e a revolta sublimada...
A colocação sobre o sofá não é casual – há uma estranha inquietação nesta composição. Uma espécie de suspense Hitchcockiano doméstico, com penugem...
"Mesmo as aves que voam mais alto às vezes precisam de pousar." – Anónimo

