Este design, intitulado “Lobo ou Ovelha”, opera menos como um elemento decorativo e mais como um dispositivo psicológico, concebido para interpelar diretamente o observador e forçar um momento de autoavaliação. A peça utiliza a técnica da silhueta de forma radical, reduzindo a figura de um lobo a uma mancha de monocromática quase absoluta, uma ausência de cor que toma a forma de um dos mais potentes arquétipos do mundo natural.
A representação é despojada de qualquer detalhe, exceto um: os olhos. Dois crescentes em espaço negativo, penetrantes, flutuam na massa monocromática, fitando o espectador. Este é o único ponto de comunicação, e a sua simplicidade é a sua força. Não são os olhos de um animal específico, mas a representação de um olhar primordial, de uma inteligência selvagem e avaliadora. A postura do lobo — alerta, imóvel, a meio passo — sugere que ele se deteve para observar, para medir quem tem pela frente.
É neste escrutínio que reside o cerne filosófico da obra. O título confronta-nos com uma dicotomia existencial: perante este predador, quem somos nós? Somos um igual, um “colega de matilha” reconhecido por um olhar de paridade? Ou somos uma presa, uma “ovelha” cuja presença é registada com um interesse totalmente distinto? O design transforma a parede num espelho, no qual o olhar do lobo reflete a nossa própria percepção do nosso lugar no mundo. Ele materializa a visão, porventura cínica mas certamente provocadora, de que as interações humanas se regem por dinâmicas de poder, dividindo o mundo entre os que lideram e os que seguem, os que dominam e os que são dominados.
A sua aplicação num ambiente doméstico, como se ilustra, cria uma justaposição fascinante. O símbolo da natureza selvagem e indomada irrompe no espaço seguro e civilizado do lar, um lembrar desconcertante de que as leis da alcateia podem não estar tão distantes da condição humana como gostaríamos de pensar.
“O homem é o lobo do homem.” — Thomas Hobbes