Eis uma peça que vive da sua própria contradição, uma fusão de dois universos simbólicos que, à partida, se excluem mutuamente. De um lado, a adaga: um objeto de precisão letal, de intenção clara e afiada, com um punho trabalhado que sugere um uso cerimonial ou ritualístico. Do outro, as asas de borboleta, o arquétipo da fragilidade, da transformação e da beleza efémera, aqui desenhadas com a complexidade de um vitral gótico. O resultado é um objeto de fantasia sombria, um paradoxo visual que perturba e fascina.
A sugestão de que esta arma, por ter asas, seria "menos perigosa" é a armadilha subtil da sua estética. A beleza das asas não anula a ameaça da lâmina; pelo contrário, torna-a mais insidiosa, mais inesperada. Esta não é uma adaga forjada para o campo de batalha, mas sim uma arma pertencente a uma criatura do Outro Mundo, uma fada no sentido mais antigo e temível do termo, para quem a beleza e o perigo são duas faces da mesma moeda. É uma ferramenta para infligir feridas que talvez não sangrem, para cortar laços invisíveis ou para defender um território mágico. Um emblema perfeito para quem compreende que a maior força reside, por vezes, na mais delicada das aparências...
"Parece a flor inocente, mas sê a serpente que sob ela se esconde." — William Shakespeare

