Há uma ironia profundamente inquietante, em transformar o maior símbolo da nossa vigilância coletiva num objeto de decoração para o lar. Este autocolante não é pois um ato de subversão doméstica, um cavalo de Troia estético que se infiltra no nosso espaço mais íntimo para nos confrontar com uma verdade que preferimos ignorar. A imagem é despida de qualquer artifício: uma câmara de CCTV, desenhada num estilo de stencil, cru e impessoal, apontada diretamente a nós. Por baixo, a frase "They see you!" — "Eles veem-te!" — não é um aviso amigável, é uma constatação. A tipografia, em stencil, remete-nos de imediato para o universo da arte urbana, do graffiti de protesto, transportando a linguagem da rua para a asséptica parede de uma sala de estar.
O perverso desta peça reside precisamente nessa descontextualização. Ao ser colocada no interior de uma casa, o último reduto suposto da privacidade, a imagem adquire uma nova camada de significado. Deixa de ser uma crítica à vigilância do Estado ou das corporações em espaços públicos e passa a ser um comentário sobre a nossa própria cumplicidade. Somos nós que instalamos assistentes virtuais que nos ouvem, que partilhamos a nossa vida em redes sociais, que aceitamos os termos e condições sem ler.
É quase como pendurar um retrato do nosso carcereiro na parede da cela. Este autocolante é para quem entende o paradoxo, para quem vive com a dissonância cognitiva de desejar a privacidade enquanto alimenta o sistema que a destrói. É uma piscadela de olho sarcástica ao "Big Brother", um recordar desconfortável de que o olho que tudo vê já não está apenas lá fora; nós convidámo-lo a entrar....
"Big Brother is watching you." – George Orwell
