Na selva de betão que construímos, quem é o verdadeiro estranho? Este decalque é o revisitar de uma velha questão.. uma parábola visual colada na parede. "O Viajante" apresenta-nos uma figura poderosa, um gorila, o parente mais próximo que empurrámos para as margens do nosso mundo "civilizado". No entanto, aqui ele não está no seu habitat natural. Está humanizado, de pé, carregando bagagens — uma mala de viagem formal e um saco improvisado, quase precário. Esta dualidade na sua carga é a primeira pista. Ele não é um turista. É alguém em trânsito, apanhado entre um passado que deixou para trás e um futuro incerto para onde se dirige.
Esta imagem é um espelho desconfortável que reflete as narrativas contemporâneas sobre a imigração e o deslocamento. O gorila, um ser de imensa força e inteligência, é aqui o "outro", o estrangeiro que chega às nossas fronteiras. A sua postura não é ameaçadora, mas resignada, talvez cansada. O seu olhar parece questionar não apenas o seu lugar neste novo ambiente, mas também a nossa reação a ele. Somos nós os que o observam com medo, suspeita ou indiferença? Ao despojar o viajante da sua humanidade e substituí-la pela de um primata, a crítica torna-se mais aguda. Força-nos a confrontar os nossos próprios preconceitos: se sentimos empatia por este animal deslocado, porque é que tantas vezes a negamos aos nossos semelhantes que enfrentam a mesma jornada?
A sua presença numa parede de uma casa ou de um escritório não serve para embelezar, mas para provocar pensamento. É uma peça de guerrilha artística para o interior, um grito silencioso e constante das jornadas invisíveis que milhões de pessoas são forçadas a empreender. Não procuram conquistar, mas sobreviver. Carregam não apenas os seus poucos pertences, mas também o peso da esperança e o estigma de serem considerados menos que humanos. Este decalque é para quem acredita que a arte não deve apenas decorar, mas perturbar a nossa zona de conforto e fazer as perguntas que convenientemente escolhemos ignorar.
"Nenhum de nós é tão estranho como as pessoas pensam." - Anónimo