Eis a epopeia da negação automobilística, transformada em autocolante para gáudio dos mais distraídos e troça dos mais maldosos. Fixado com uma convicção quase religiosa na traseira de um espécime que, pelo aspeto, já viu mais invernos que a maior parte dos leitores e que, provavelmente, foi fabricado numa época em que o "digital" era apenas uma forma de contar nos dedos, este adesivo é um grito silencioso contra a tirania da obsolescência programada.
Não nos iludamos, caro leitor, o carro em questão é, sem sombra de dúvida, velho. Tem as suas marcas de combate, as suas mossas com história e uma cor que, se algum dia foi algo definido, hoje é apenas uma pálida lembrança desbotada pelo sol e pela passagem inexorável do tempo. Provavelmente, o seu condutor tem uma playlist em cassete e uma coleção de bolachas do café que ainda se usavam como cinzeiro de bolso. Mas, para este condutor, a idade é apenas um número, um pormenor irrelevante. O que importa é o estatuto.
"Clássico", diz o autocolante, com a autoridade de um professor catedrático de História do Automóvel. E aqui reside a acidez da piada. Não é um "clássico" no sentido de um descapotável dos anos 60, polido até ao brilho de um espelho e guardado em garagem climatizada. É "clássico" no sentido em que já ninguém faz carros tão... robustos. Ou tão propensos a deixar uma mancha de óleo no chão do estacionamento. É a nobreza da resistência, a resiliência do motor que, apesar de tudo, ainda pega à primeira (ou à segunda, com um pouco de sorte e fé). É o orgulho de quem recusa sucumbir à ditadura dos SUVs e dos carros elétricos que parecem saídos de um filme de ficção científica.
Este autocolante é para o proprietário com um humor tão fino quanto a camada de verniz que resta no seu carro. É para aquele que sabe que o seu veículo é um caixote com rodas, mas que prefere vê-lo como uma peça de museu em rodagem, uma relíquia viva dos tempos em que os carros tinham alma, não "displays" táteis. É uma forma hilariante de desarmar a crítica alheia, de transformar a piada em manifesto, e de nos lembrar que, afinal, a verdadeira classe reside na capacidade de rir de si mesmo, mesmo que o espelho retrovisor já só mostre a ferrugem...
"A velhice não é perda da juventude, mas uma nova etapa de oportunidade e força." – Betty Friedan (que, no entanto, nunca teve de conduzir um Datsun de 1980 com o banco do condutor rasgado). 😜