Olha-se para esta design e não se vê uma imagem, vê-se um diagnóstico. É um comentário visual, afiado e desconcertantemente preciso, sobre a condição humana na era do consumo. A fusão é de uma simplicidade genial e, por isso mesmo, brutal: o código de barras, esse ADN do comércio global, o símbolo máximo da padronização e da mercantilização, tem as suas linhas retilíneas e impessoais substituídas pelo padrão orgânico e único das riscas de uma zebra. De um lado, a natureza na sua expressão de individualidade — pois não existem duas zebras com o mesmo padrão. Do outro, o sistema na sua máxima expressão de homogeneidade. O que esta imagem nos mostra, sem necessidade de uma única palavra de legenda, é a forma como a sociedade contemporânea tenta enquadrar, catalogar e precificar o que é, por natureza, livre e indomável.
Somos nós ali, naquela parede. A nossa unicidade, o nosso padrão irrepetível de riscas, é enquadrada, codificada e numerada, pronta para ser lida por um scanner invisível. Os números por baixo do código não são aleatórios; eles são a nossa data de nascimento, o nosso número de identificação, a nossa referência de cliente. Somos transformados num produto, uma entrada numa base de dados, um ativo a ser gerido. Colocar isto na parede de uma casa é um ato de dissidência silenciosa. Não é uma peça decorativa destinada a embelezar; é uma interrogação permanente. É recordar diário do absurdo de um sistema que nos tenta convencer de que a nossa identidade pode ser resumida a uma série de barras e números, e de que a nossa natureza selvagem pode ser domesticada e vendida. É a arte a imitar a vida, ou, neste caso, a denunciar a forma como a vida está a ser forçada a imitar um sistema de padronizado...
"O homem livre é aquele que não teme ir até ao fim do seu pensamento." – Léon Blum