Meta e Anthropic discutem o futuro da IA, mas a disputa real é pelo poder
Meta e Anthropic discutem o futuro da IA, mas a disputa real é pelo poder
Mark Zuckerberg publicou um texto longo sobre inteligência artificial e fez uma escolha política, não apenas técnica. A Meta quer apresentar a futura superinteligência como uma ferramenta distribuída: agentes pessoais, modelos abertos e capacidade para criar negócios sem depender de equipas enormes. A crítica vai dirigida, sem nome, a quem defende mais contenção, mais avaliações e um controlo mais apertado sobre modelos de fronteira.
É difícil não ler Dario Amodei nesse retrato. O responsável da Anthropic tem insistido que sistemas muito mais capazes podem surgir depressa e provocar uma perturbação séria no emprego, na segurança e na distribuição de poder. No texto da Meta, Zuckerberg responde à tese de que a IA perigosa deve ficar concentrada em poucas mãos: considera que entregar esse poder a uma pequena elite é, por si só, um risco.
O desacordo não é entre optimistas e pessimistas. Ambos apostam na chegada de modelos muito mais capazes do que os actuais. Ambos falam de biologia, cibersegurança, emprego e controlo humano. A diferença essencial parece estar no "remédio". A Anthropic quer travões antes de a tecnologia passar certos limiares; já a Meta quer mais acesso, concorrência e uma separação de poderes entre empresas, governos e utilizadores.
Zuckerberg sustenta que a IA deve servir a invenção e não a simples substituição de trabalhadores. É uma promessa atraente, sobretudo para quem trabalha sozinho ou numa empresa pequena. Um agente que trata de tarefas repetitivas pode baixar o custo de lançar um produto, testar uma ideia ou aprender uma competência. Dario Amodei também admitiu, em 2025, que a IA poderia tornar plausível uma empresa avaliada em mil milhões de dólares gerida por uma única pessoa.
Há, no entanto, um salto que ninguém resolveu... é que tornar possível criar mais depressa não garante que o valor criado seja distribuído. Uma pessoa com bom acesso a modelos, capital, dados e canais de venda poderá avançar muito mais depressa do que outra que apenas tenha (por exemplo) uma versão gratuita de um assistente. Por este motivo, a promessa de democratização perde força se a capacidade de computação continuar fechada num punhado de gigantes.
O próprio texto da Meta reconhece a limitação, ainda que sem lhe dar grande peso. A empresa propõe versões gratuitas para milhares de milhões de pessoas e acesso pago a mais computação. Isso amplia o alcance dos produtos, mas não transforma centros de dados, chips ou energia em bens distribuídos, ou seja, quem controla essa infraestrutura continua a definir os limites práticos do que cada agente consegue fazer.
Também há uma tensão menos teórica e mais incómoda. Zuckerberg escreve que agentes pessoais vão libertar tempo; Andrew Bosworth, director de tecnologia da Meta, reagiu recentemente a um pedido de mais dias de folga dizendo que os ganhos de produtividade deveriam servir para produzir mais para os utilizadores. A tecnologia pode reduzir trabalho rotineiro, mas não decide por si se a recompensa será descanso, salários, despedimentos ou metas mais altas...
Penso que a Anthropic tem razão ao tratar a concentração de capacidade e os riscos de abuso como problemas concretos, por outro lado, a Meta tem também alguma razão ao desconfiar de uma solução onde poucas empresas alegam saber o que todos os outros podem fazer com IA. No fim do dia, penso que nenhuma das respostas será suficiente sem regras públicas, auditorias independentes e uma discussão séria sobre quem recebe os benefícios económicos.
O discurso sobre modelos abertos merece a mesma cautela. Abrir pesos pode dar a investigadores, programadores e empresas pequenas instrumentos que antes só existiam dentro dos grandes laboratórios. Pode igualmente dificultar a contenção de usos perigosos. Não há uma fórmula limpa que torne os dois factos compatíveis; cada lançamento exige avaliação do modelo, das salvaguardas e do contexto. Sendo sincero.. não sei se vamos conseguir ultrapassar este problema!
Parece que a rivalidade entre Meta e Anthropic é apresentada como uma discussão sobre liberdade contra alarmismo... mas não será mais útil vê-la pelo que é? Uma disputa sobre quem manda na próxima camada de infraestrutura digital.
